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TCV lidera financiamento de 200 milhões de dólares para Mercury, como os serviços bancários de criptomoedas sustentam uma receita anual de 650 milhões de dólares
A fintech Mercury anunciou em maio de 2026 a conclusão de uma rodada de financiamento Série D de 200 milhões de dólares, liderada pela TCV, com participação de Sequoia Capital, Andreessen Horowitz (a16z) e Coatue Management, entre outros investidores, atingindo uma avaliação pós-investimento de 5,2 bilhões de dólares. Essa avaliação representa um aumento de 49% em relação à rodada anterior, ocorrida há 14 meses, e ocorreu em um ambiente de esfriamento geral do financiamento no setor de fintechs globais, demonstrando expansão contracíclica.
O core business da Mercury não é um banco tradicional, mas sim fornecer serviços bancários digitais para startups, abrangendo abertura de contas corporativas, pagamentos, gestão financeira e outros cenários. Até o momento, possui mais de 300 mil clientes, atendendo cerca de um terço das startups iniciais nos EUA, com receita anual de aproximadamente 650 milhões de dólares, e tem mantido lucro líquido GAAP e EBITDA positivos por quatro anos consecutivos. Em um setor de fintech conhecido por “queimar dinheiro para expandir”, esse indicador de lucratividade é altamente escasso.
Qual é a lógica de investimento por trás da liderança da TCV
A rodada foi liderada pela TCV (Technology Crossover Ventures), uma firma de venture capital renomada por investir em empresas de tecnologia em estágio de crescimento, tendo investido em fintechs globais como Revolut e Nubank. A entrada da TCV indica que a Mercury passou do estágio de exploração de mercado inicial para a fase de “crescimento em escala” definida por capital — esse tipo de VC geralmente aposta quando a empresa apresenta um modelo de lucro claro e uma base de clientes significativa.
A continuidade do aporte por parte da a16z e da Sequoia também merece atenção. A16z tem uma estratégia de longo prazo no setor de fintech, e, em 2025, de suas 206 transações, quase um quarto envolveu fintechs, com 22% relacionadas a blockchain. A Sequoia, nos últimos anos, passou de uma fase de “testes iniciais” para uma postura de “adoção total” de criptomoedas e finanças digitais, incluindo registro como consultora de investimentos e criação de fundos dedicados a criptomoedas. A convergência dessas três principais firmas de venture capital na Mercury reflete, objetivamente, o reconhecimento contínuo do setor de bancos de criptomoedas por parte do capital mainstream.
Os 300 mil clientes e a receita de 650 milhões de dólares são sustentáveis?
O crescimento da Mercury não decorre de uma expansão natural de um setor isolado, mas de capturar dois grandes dividendos estruturais. Primeiro, a onda de startups de IA impulsionou significativamente a demanda por abertura de contas e registro de novas empresas. O CEO Immad Akhund destacou que a IA reduziu drasticamente os custos de transformar uma ideia em uma empresa, prevendo que nos próximos cinco anos o número de startups ultrapassará o total dos últimos vinte anos. Desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022, a IA generativa não só impactou setores tradicionais, mas também gerou uma enxurrada de novos projetos empreendedores, com a Mercury, ao oferecer serviços de contas voltados para startups, sendo beneficiária direta dessa tendência. No primeiro trimestre de 2026, o número de solicitações de contas aumentou 2,5 vezes em relação ao mesmo período de 2025.
Segundo, o colapso do Silicon Valley Bank em 2023 foi um ponto de inflexão importante. O evento revelou a vulnerabilidade do sistema bancário tradicional em atender startups de tecnologia, levando muitas a buscar provedores de serviços mais estáveis e flexíveis. A Mercury aproveitou essa oportunidade para ampliar sua fatia de mercado. Atualmente, mais de 73% dos novos clientes vêm de setores além de IA e tecnologia, indicando uma expansão de sua base para áreas comerciais mais amplas.
Como a obtenção de licença bancária federal pode mudar o jogo
A Mercury recebeu uma aprovação condicional do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para solicitar uma licença bancária federal, com previsão de aprovação final em 2027. Essa não é uma simples questão de conformidade, mas uma transformação fundamental de “camada de distribuição frontal” para “camada de infraestrutura”.
Com a licença, a Mercury passará a ter três capacidades centrais: primeiro, operar de forma autônoma no segmento de empréstimos, convertendo depósitos de clientes em receita de crédito; segundo, integrar-se a redes de pagamento instantâneo como Zelle, reduzindo a dependência de bancos parceiros; terceiro, reter uma maior parcela dos lucros de suas operações próprias, ao invés de repassar para bancos associados. A falência do intermediário de fintech Synapse já expôs riscos sistêmicos na dependência de parcerias bancárias tradicionais. Assim, a iniciativa da Mercury de solicitar uma licença bancária própria é uma resposta institucional a essa vulnerabilidade estrutural do setor.
De uma perspectiva mais ampla, essa transformação está alinhada com a tendência de Fintech 4.0, que busca usar infraestrutura programável para reduzir a dependência do sistema bancário tradicional e reestruturar processos financeiros essenciais. Quando a Mercury evoluir de “ajudar clientes a abrir contas” para “ser ela própria o banco por trás das contas”, seu modelo de negócio migrará de receitas de serviços para juros líquidos, mudando a dinâmica econômica por unidade.
Como o cenário de bancos de criptomoedas pode evoluir
O setor de bancos de criptomoedas não é mais exclusivo da Mercury. Até 2026, mais de 50 bancos digitais de criptomoedas já estão operando globalmente, com o mercado de bancos digitais estimado em cerca de 552 bilhões de dólares. Entre 2025 e 2026, mais de 18 fintechs e bancos de criptomoedas obtiveram licenças de trust nacional do OCC, incluindo Circle, Ripple, BitGo e Paxos.
No entanto, a lógica competitiva não se resume à quantidade de licenças. Cerca de 76% dos bancos digitais tradicionais ainda não são lucrativos. Os vencedores, como Nubank, Revolut e SoFi, não dependem de taxas de cartão de crédito para crescer, mas de lucros de empréstimos e juros líquidos — as taxas de cartão são apenas uma porta de entrada, enquanto o crédito é o núcleo do negócio. A Mercury, com receita anual de 650 milhões de dólares, ainda depende principalmente de taxas de serviço, mas, após obter a licença federal, seu foco será desenvolver oferta de produtos de crédito e sistemas de gestão de risco.
Outro aspecto importante é a definição de “banco amigável a criptomoedas”. Diferentemente dos bancos tradicionais, esses bancos precisam atender às demandas de fluxo de fundos fiduciários e ativos digitais simultaneamente. A Mercury, por exemplo, atende startups de criptomoedas e Web3, incluindo Phantom, Rarible e outras milhares de empresas, além de suportar transações ilimitadas relacionadas a criptomoedas. Sua capacidade de equilibrar o suporte a ativos digitais com a conformidade regulatória será decisiva para definir seus limites de mercado futuros.
A entrada do setor financeiro tradicional está mudando o jogo?
O momento da rodada da Mercury ocorre em um contexto macro de aceleração da aceitação do sistema financeiro tradicional às criptomoedas. Entre 2025 e 2026, a SEC eliminou o parecer SAB 121, removendo obstáculos contábeis para custódia de criptoativos por bancos; o OCC publicou a carta 1188, permitindo que bancos nacionais detenham e ofereçam serviços de custódia de ativos digitais sem necessidade de licença especial. Grandes bancos como JPMorgan já facilitam transferências para exchanges de criptomoedas, e o Bank of America criou um time dedicado a pesquisa de ativos digitais, enquanto o Wells Fargo lançou empréstimos lastreados em Bitcoin.
Essa tendência impacta diretamente bancos de criptomoedas como a Mercury. Por um lado, a maior clareza regulatória reduz custos de conformidade e incertezas, criando um ambiente mais favorável à expansão. Por outro, a entrada de bancos tradicionais eleva a competição de “quem consegue aceitar criptoativos” para “quem oferece melhores taxas de juros, crédito e experiência de pagamento”. A vantagem competitiva da Mercury reside na sua forte atuação com startups, que resistem a produtos padronizados de bancos tradicionais. Ainda assim, mais de 73% dos novos clientes vêm de setores não tecnológicos, indicando uma diversificação de sua base e uma maior resistência à concorrência de bancos tradicionais.
Quanto potencial de monetização há na rede de clientes de startups?
A Mercury atende atualmente mais de 300 mil startups, formando um ativo valioso de sua rede de clientes. A empresa vem expandindo seu portfólio de produtos para monetizar essa rede. Recentemente, lançou o Mercury Insights, sua primeira ferramenta de IA integrada ao produto, que fornece uma visão em tempo real da saúde financeira; também integrou o Model Context Protocol, uma interface segura de acesso a ferramentas de IA para desenvolvedores; e adquiriu a Central, que oferece gestão de remuneração baseada em IA nativa. Para 2026, planeja lançar o Mercury Command, permitindo que clientes realizem consultas financeiras, ajustes em regras de transferências, classificação de transações e emissão de faturas via comandos em linguagem natural.
Do ponto de vista de lógica de negócios, a evolução da Mercury apresenta fases claras: primeiro, atuar como “porta de entrada” para startups, captando clientes; depois, aprofundar o produto (ferramentas de IA, gestão de remuneração, contas pessoais) para aumentar receita por cliente; por fim, obter licença bancária própria para construir capacidade de crédito, transformando a relação com clientes de “serviço” para “ativo e passivo”. O CEO já afirmou que seu objetivo de longo prazo é uma IPO independente, não uma aquisição, o que exige comprovar continuamente a lucratividade e competitividade do seu modelo.
Resumo
O caso da Mercury, que levantou 200 milhões de dólares e atingiu avaliação de 52 bilhões, é um exemplo importante para entender a lógica de valuation no setor de bancos de criptomoedas. Em um cenário de esfriamento do financiamento em fintechs, seu crescimento contracíclico é impulsionado por dividendos estruturais da onda de IA e pelo aumento da demanda por serviços bancários alternativos após o colapso do Silicon Valley Bank. Com mais de 300 mil clientes e quatro anos de lucro contínuo, o setor de bancos de criptomoedas já passou da fase de “crescimento de usuários” para “validação de modelos de lucro” e “obtenção de licença bancária própria”. O envolvimento de TCV, a16z, Sequoia e outros grandes investidores, além da mudança de foco de bancos tradicionais para ativos digitais, aponta para uma tendência: bancos de criptomoedas deixam de ser um experimento marginal para se consolidar como parte fundamental da infraestrutura financeira. A avaliação futura da Mercury dependerá, em grande medida, de sua capacidade de transformar sua rede de clientes em receita de juros com a obtenção da licença bancária federal.
Perguntas frequentes (FAQ)
Q: A Mercury é um banco de criptomoedas?
A Mercury oferece principalmente serviços bancários digitais para startups, incluindo muitas empresas de criptomoedas e Web3, e suporta transações ilimitadas relacionadas a criptoativos, sendo muitas vezes classificada como “banco amigável a criptomoedas”. Contudo, seu core business não se limita ao setor de cripto, atendendo também setores de comércio eletrônico, serviços profissionais e outros.
Q: Quanto a avaliação da Mercury aumentou nesta rodada em relação à anterior?
A rodada Série D avalia a Mercury em 5,2 bilhões de dólares, um aumento de 49% em relação à rodada anterior, ocorrida há 14 meses.
Q: A Mercury já é lucrativa?
Sim. A Mercury tem apresentado lucro líquido GAAP e EBITDA positivos há quatro anos consecutivos, o que é incomum em um setor de fintechs que ainda se expande por meio de perdas.
Q: O que a licença bancária federal permitirá à Mercury fazer?
Com a licença, a Mercury poderá operar de forma autônoma no segmento de empréstimos, integrar-se a redes de pagamento instantâneo como Zelle, e reduzir a dependência de bancos parceiros, aumentando sua receita própria.
Q: Qual é o tamanho do mercado global de bancos de criptomoedas atualmente?
Segundo dados de terceiros, há mais de 50 bancos digitais de criptomoedas em operação, e o mercado global de bancos digitais deve atingir cerca de 552 bilhões de dólares até 2026.
Q: Quais são os planos de IPO da Mercury?
O CEO afirmou que o objetivo de longo prazo da Mercury é uma IPO independente, não uma aquisição por outra instituição financeira.